Para avaliar o rim de cães e gatos, a creatinina continua sendo o exame básico e o SDMA, que sobe antes dela e sofre menos efeito da massa muscular, entra junto no estadiamento da IRIS; a ureia ajuda, mas é menos específica, e o UPC mede a proteína que a urina perde. Nenhum deles substitui os outros nem a urinálise, e o diagnóstico de doença renal crônica (DRC) exige alteração persistente em paciente bem hidratado, então repita o exame antes de estadiar.
O que cada exame mostra
A creatinina vem do músculo e é eliminada pelo rim, de modo que sobe quando a filtração cai, mas o valor depende da massa muscular: no cão ou no gato que perdeu músculo com a idade ou com a doença, a creatinina pode continuar normal com a filtração já reduzida (Hall et al., 2016; Kongtasai et al., 2022). A ureia também sobe quando o rim falha, mas muda com a alimentação (Yi et al., 2023) e com a hidratação, e por isso é menos específica.
O SDMA (dimetilarginina simétrica) é eliminado principalmente pelo rim, e a concentração no sangue acompanha a filtração glomerular medida pelo iohexol (Hall et al., 2014; Hall et al., 2016). Ao contrário da creatinina, ele sofre pouco efeito da massa muscular (Relford et al., 2016; Van Vertloo, 2025). Em colônias de pesquisa, passou do limite superior antes da creatinina em 17 de 19 cães com DRC, em média 9,8 meses antes (de 2,2 a 27 meses; Hall et al., 2016), e em 17 de 21 gatos, em média 17 meses antes (de 1,5 a 48 meses; Hall et al., 2014). Em 10 dos 19 cães e em 6 dos 21 gatos a creatinina nunca saiu do intervalo de referência, e nesses o tempo foi contado até a morte ou até a última medição. Nos gatos, tomando como padrão uma queda da filtração maior que 30% e o limite de 2,1 mg/dL para a creatinina, a sensibilidade foi de 100% para o SDMA e de 17% para a creatinina, com especificidade menor no SDMA, 91% contra 100% (Hall et al., 2014).
Os dois estudos de Hall são retrospectivos e usaram animais de colônias das empresas financiadoras, e os trabalhos de Relford (2016), Hall (2016) e Dahlem (2017) têm coautores da IDEXX, fabricante do teste. Em cães com doença renal, o SDMA identificou os doentes, mas não diferenciou lesão renal aguda de doença crônica (Dahlem et al., 2017), e a própria IRIS diz que a pesquisa ainda precisa definir o valor preditivo positivo de um SDMA acima de 14 µg/dL isolado. Nos gatos, os dados sobre a especificidade também são limitados (Kongtasai et al., 2022).
O UPC (relação proteína/creatinina urinária) compara a proteína da urina com a creatinina da mesma amostra, o que corrige o efeito da concentração da urina. A proteinúria que geralmente indica doença renal é a persistente e de origem renal, e a reação positiva na fita reagente deve ser seguida de outro teste (Lees et al., 2005). Para considerar a proteinúria persistente, a IRIS pede, idealmente, três ou mais amostras de urina colhidas ao longo de pelo menos duas semanas, e o Manual MSD fala em pelo menos duas amostras nesse intervalo. O UPC serve para subestadiar a DRC: em cães, abaixo de 0,2 é não proteinúrico, de 0,2 a 0,5 é limítrofe e acima de 0,5 é proteinúrico; em gatos, os limites são 0,2 e 0,4 (Van Vertloo, 2025).
Antes de interpretar o UPC, olhe o sedimento. Em 70 amostras de cães com piúria, 81% tinham UPC normal, e o sangue adicionado a urina normal não levou o UPC além de 0,4 em nenhuma diluição (Vaden et al., 2004). Mesmo assim, o Manual MSD orienta avaliar o UPC em todo paciente com DRC, a menos que inflamação urinária ou hematúria possam elevá-lo de forma falsa, e a urinálise colhida junto mostra se esse é o caso (Van Vertloo, 2025).
Estadiamento IRIS: creatinina e SDMA
A IRIS só estadia cães e gatos com DRC estável, depois de feito o diagnóstico. O Manual MSD descreve o estadiamento em pelo menos duas ocasiões, com o paciente estável, hidratado e depois de jejum, e reproduz a tabela da IRIS com os limites abaixo (Van Vertloo, 2025):
Cães: estágio 1, creatinina abaixo de 1,4 mg/dL e SDMA abaixo de 18 µg/dL; estágio 2, creatinina de 1,4 a 2,8 e SDMA de 18 a 35; estágio 3, creatinina de 2,9 a 5,0 e SDMA de 36 a 54; estágio 4, creatinina acima de 5,0 e SDMA acima de 54.
Gatos: estágio 1, creatinina abaixo de 1,6 mg/dL e SDMA abaixo de 18 µg/dL; estágio 2, creatinina de 1,6 a 2,8 e SDMA de 18 a 25; estágio 3, creatinina de 2,9 a 5,0 e SDMA de 26 a 38; estágio 4, creatinina acima de 5,0 e SDMA acima de 38.
O texto da página da IRIS cita 2,7 mg/dL (249 µmol/L) como limite superior do estágio 2 nos cães, enquanto a tabela do MSD traz 2,8. Segundo a mesma página, o limite superior do SDMA é 14 µg/dL em cães e gatos. SDMA persistentemente acima disso, com a creatinina normal, é compatível com DRC: de 15 a 17 µg/dL o paciente entra no estágio 1, e acima de 17 µg/dL persistente o SDMA já está na faixa do estágio 2 da tabela. Quando creatinina e SDMA apontam estágios diferentes, a IRIS recomenda repetir em 2 a 4 semanas e, se a diferença persistir, sugere por precaução adotar o estágio mais avançado. Os documentos da IRIS são revisados com frequência, e vale conferir a versão vigente no site.
Qual exame pedir em cada situação
Check-up do adulto e do idoso: creatinina e ureia (perfil renal 1, 037) com urinálise (305) para ver a densidade e o sedimento; no idoso, o perfil geriátrico (004) reúne esses exames com hemograma, albumina, ALT, colesterol, fosfatase alcalina e glicose.
Animal magro, com perda de massa muscular ou com creatinina no limite superior do intervalo: some o SDMA (238), porque a creatinina pode enganar nesse paciente.
Creatinina ou ureia aumentadas: confirme a hidratação, repita o exame, peça urinálise com UPC (perfil urina 2, 061) e meça a pressão arterial, que a IRIS recomenda em todo cão e gato com DRC.
DRC confirmada: perfil insuficiência renal crônica (087), que reúne hemograma, cálcio, creatinina, fósforo, potássio, sódio, ureia, urinálise e UPC, mais o SDMA (238) para o estadiamento.
Proteinúria com sedimento ativo: urinálise, UPC e urocultura (perfil urina 4, 065), e repita o UPC depois de tratar a infecção.
Antes de estadiar: repita creatinina e SDMA, idealmente os dois, em 2 a 4 semanas; uma variação menor que 20 a 25% indica filtração relativamente estável e permite estadiar (IRIS).
Cinco cuidados na coleta
Jejum: a SPES LAB pede jejum de 8 a 12 horas para creatinina, ureia e SDMA, e a IRIS recomenda colher a creatinina em jejum, idealmente de 12 horas, porque uma refeição com carne pode elevá-la. Em 100 cães saudáveis de 15 kg ou mais, alimentados com a ração habitual depois de jejum de 10 a 26 horas, a creatinina variou além do erro total permitido (20%) em 2 cães, o SDMA além de 43% em 5, a ureia em 66, o fósforo em 46 e os triglicerídeos em 92; a ureia e o fósforo ficaram sempre dentro do intervalo de referência, e nenhum dos 5 cães com variação do SDMA passou de 14 µg/dL (Yi et al., 2023). Os autores concluem que o jejum geralmente não é necessário na bioquímica de rotina de cães sadios, mas o estudo não incluiu gatos nem animais doentes, e a SPES LAB mantém o pedido de jejum para os três exames.
Hidratação: colha com o paciente hidratado, porque a IRIS só diagnostica DRC com alteração persistente em paciente bem hidratado, e repetir o exame em 2 a 4 semanas ajuda a afastar a desidratação subclínica.
Tubo: o SDMA usa soro, em tubo com ativador de coágulo ou gel separador (tampa vermelha ou amarela). A creatinina aceita EDTA, soro ou heparina, e a ureia, EDTA ou soro.
Urina: para o UPC e a urinálise, envie a urina em frasco estéril, com pelo menos 4 mL nos perfis de urina, e anote se a colheita foi por cistocentese, cateter ou micção.
Informações no pedido: espécie, idade, medicamentos em uso, fluidoterapia recente e se o animal comeu.
Exames da SPES LAB para avaliar o rim
A SPES LAB, laboratório veterinário em São José do Rio Preto, oferece os exames abaixo.
Código · exame · amostra · prazo
216 · Creatinina · EDTA, soro ou heparina · 1 dia útil
243 · Ureia · EDTA ou soro · 1 dia útil
238 · SDMA (dimetilarginina) · Soro · 1 dia útil
304 · Relação proteína/creatinina urinária (UPC) · Urina · 1 dia útil
305 · Urinálise · Urina em frasco estéril · 1 dia útil
037 · Perfil renal 1: creatinina e ureia · Soro · 1 dia útil
038 · Perfil renal 2: hemograma, creatinina e ureia · Soro e EDTA · 1 dia útil
039 · Perfil renal 3: hemograma, creatinina, fósforo, ureia e urinálise · Soro, EDTA e urina · 1 dia útil
087 · Perfil insuficiência renal crônica: hemograma, cálcio, creatinina, fósforo, potássio, sódio, ureia, urinálise e UPC · Soro, EDTA e urina · 1 dia útil
061 · Urina 2: urinálise e UPC · Urina em frasco estéril (mínimo 4 mL) · 1 dia útil
065 · Urina 4: urinálise, UPC e urocultura · Urina em frasco estéril (mínimo 4 mL) · 10 dias úteis
004 · Perfil geriátrico: hemograma, albumina, ALT, colesterol, creatinina, fosfatase alcalina, ureia, glicose e urinálise · Soro, fluoreto, EDTA e urina · 1 dia útil
Os valores estão no portfólio de exames ou podem ser pedidos pelo WhatsApp.
Perguntas frequentes
SDMA precisa de jejum?
A SPES LAB pede jejum de 8 a 12 horas para o SDMA, como para a creatinina e a ureia. Em 100 cães saudáveis, o SDMA variou além do esperado depois de uma refeição em 5, e outros 10, que tinham SDMA dentro do intervalo em jejum, passaram do limite de 14 µg/dL depois de comer (Yi et al., 2023). Se o animal comeu, anote no pedido e repita o exame quando o valor for decidir a conduta.
Qual tubo usar para SDMA?
Soro, em tubo com ativador de coágulo ou gel separador (tampa vermelha ou amarela). Nenhum perfil do portfólio da SPES LAB inclui o SDMA, então ele é pedido à parte (238).
O SDMA substitui a creatinina?
Não. Os dois entram no estadiamento da IRIS e se complementam: o SDMA acusa perdas menores de filtração e sofre menos efeito da massa muscular, enquanto a creatinina continua sendo o exame básico do estadiamento, e a IRIS usa os dois. Quando eles discordam, repita em 2 a 4 semanas e, se a diferença persistir, a IRIS sugere adotar o estágio mais avançado.
SDMA em gatos serve para quê?
A DRC é uma das doenças mais diagnosticadas em gatos idosos e, na maioria deles, progride (Sparkes et al., 2016). Como o gato que perde massa muscular pode manter a creatinina normal, o SDMA ajuda: em uma colônia de pesquisa, ele passou do limite superior antes da creatinina em 17 de 21 gatos com DRC, em média 17 meses antes (Hall et al., 2014). Os dados de especificidade em gatos ainda são limitados (Kongtasai et al., 2022), por isso leia o SDMA junto com a urinálise e confirme em nova amostra.
Creatinina alta em cachorro quer dizer doença renal?
Nem sempre. A creatinina também sobe com a desidratação, e a IRIS só diagnostica DRC com alteração persistente em paciente bem hidratado. Antes de concluir, confirme a hidratação, repita o exame, peça a urinálise com a densidade urinária e o UPC e meça a pressão arterial.
Ureia alta em gatos: o que pode ser?
A ureia sobe na doença renal, mas também com a desidratação e com a alimentação, então é menos específica que a creatinina. Em cães saudáveis, a ureia variou além do erro total permitido depois de uma refeição em 66 de 100, ainda que sempre dentro do intervalo de referência (Yi et al., 2023); as fontes citadas aqui não trazem esse dado para gatos. Leia a ureia junto com a creatinina, a densidade urinária e a hidratação do gato.
Quais exames entram no perfil renal?
O perfil renal 1 (037) tem creatinina e ureia, o 2 (038) acrescenta o hemograma, e o 3 (039) reúne hemograma, creatinina, fósforo, ureia e urinálise. O perfil insuficiência renal crônica (087) soma cálcio, potássio, sódio e UPC. O SDMA (238) é pedido à parte.
Quanto tempo demora o resultado?
Na SPES LAB, creatinina, ureia, SDMA, UPC, urinálise e os perfis renais saem em 1 dia útil. O perfil urina 4 (065), que inclui a urocultura, leva 10 dias úteis.
Fale com a SPES LAB
Tem dúvida sobre qual exame pedir para o seu paciente? Fale com a equipe pelo WhatsApp (17) 99639-2840. Se a sua clínica ainda não envia amostras para a SPES LAB, faça o cadastro.
Revisão técnica: M.V. Gustavo Tufaile Cassia, CRMV-SP 36.464.
Referências
Relford R et al. Symmetric dimethylarginine: improving the diagnosis and staging of chronic kidney disease in small animals. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 2016.
Hall JA et al. Serum concentrations of symmetric dimethylarginine and creatinine in dogs with naturally occurring chronic kidney disease. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2016.
Hall JA et al. Comparison of serum concentrations of symmetric dimethylarginine and creatinine as kidney function biomarkers in cats with chronic kidney disease. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2014.
Dahlem DP et al. Plasma symmetric dimethylarginine concentration in dogs with acute kidney injury and chronic kidney disease. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2017.
Kongtasai T et al. Renal biomarkers in cats: a review of the current status in chronic kidney disease. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2022.
Lees GE et al. Assessment and management of proteinuria in dogs and cats: 2004 ACVIM Forum Consensus Statement (small animal). Journal of Veterinary Internal Medicine, 2005.
Vaden SL et al. Effects of urinary tract inflammation and sample blood contamination on urine albumin and total protein concentrations in canine urine samples. Veterinary Clinical Pathology, 2004.
Yi KC et al. Effect of withholding food versus feeding on creatinine, symmetric dimethylarginine, cholesterol, triglycerides, and other biochemical analytes in 100 healthy dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2023.
Sparkes AH et al. ISFM consensus guidelines on the diagnosis and management of feline chronic kidney disease. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2016.
Van Vertloo L. Renal dysfunction in dogs and cats. MSD Veterinary Manual, revisão de março de 2025, atualizada em março de 2026.
International Renal Interest Society (IRIS). IRIS staging system. Página consultada em outubro de 2026.
