Para investigar o Cushing (hiperadrenocorticismo) em cães, o teste de supressão com baixa dose de dexametasona é considerado por muitos o exame de escolha (Soler Arias e Kooistra, 2025), embora a estimulação com ACTH também seja opção conforme o quadro (Gilor e Graves, 2011), e o cortisol basal sozinho não fecha o diagnóstico. No hipotireoidismo, o T4 total baixo isolado também não basta: some o T4 livre e o TSH canino e leia o conjunto com os sinais, as doenças concomitantes e os medicamentos do cão. Nas duas doenças o exame hormonal só deve ser pedido com sinais compatíveis: no Cushing, porque nenhum teste é perfeito (Behrend et al., 2013); na tireoide, porque o T4 total e o T4 livre baixos são frequentes em cães eutireoideos doentes (Bolton et al., 2025).
Quando pedir exame hormonal
No estudo prospectivo de Soler Arias e Kooistra (2025), com 168 cães, os critérios para o Cushing eram sinais como poliúria, polidipsia, polifagia e respiração ofegante, achados como alopecia sem prurido, abdômen pendular e pele fina, fosfatase alcalina e colesterol em jejum aumentados, densidade urinária baixa e um teste dinâmico positivo. O consenso do ACVIM recomenda os testes endócrinos só com sinais compatíveis (Behrend et al., 2013), porque muitas doenças imitam o Cushing: nesse estudo, os 40 cães com doenças que imitam a síndrome tinham hepatopatia crônica, dislipidemia associada à obesidade, diabetes, feocromocitoma e hipotireoidismo, entre outras.
O hipotireoidismo é a endocrinopatia mais comum do cão (Ferguson, 2007). Separar o Cushing do hipotireoidismo, do diabetes ou de uma hepatopatia não depende só dos exames hormonais: sinais, imagem e resposta ao tratamento também contam (Gilor e Graves, 2011).
Cushing: o que cada exame responde
Cortisol basal (708): amostra única que não confirma o Cushing. Em 1.267 cães, 537 com a doença, a área sob a curva do cortisol basal foi 0,76, menor que a do cortisol 4 horas depois da dexametasona, 0,83 (Jaffey et al., 2020).
Cortisol 2 dosagens (704) e 3 dosagens (706): o teste de supressão com baixa dose de dexametasona. As 2 dosagens medem o cortisol antes e 8 horas depois da dexametasona, e as 3 dosagens acrescentam a amostra de 4 horas, que permite reconhecer o padrão de supressão (Bennaim et al., 2018).
ACTH endógeno (703): vem depois do diagnóstico confirmado, para separar o Cushing hipofisário do adrenal junto com o ultrassom (Peterson, 2007); a supressão com dexametasona já faz essa distinção em cerca de dois terços dos cães com Cushing (Gilor e Graves, 2011).
Como ler o teste de supressão
O limite hoje aceito para o cortisol 8 horas depois da dexametasona é 1,4 µg/dL (38,6 nmol/L), mas ele depende do método. Com o imunoensaio quimioluminescente Immulite 2000 XPi, o melhor corte foi 1,3 µg/dL antes de uma troca de anticorpo do fabricante, em 2020, e 1,2 µg/dL (33,1 nmol/L) depois dela, com os valores novos ajustados pela fórmula de conversão do fabricante (Rossi et al., 2026), e Soler Arias e Kooistra (2025) defendem que o corte seja definido para cada analisador. Por isso, interprete o resultado com o limite do laboratório que fez a dosagem e, como o corte muda de um ensaio para outro, envie todas as amostras do teste ao mesmo laboratório.
Para o teste de supressão intravenoso, a literatura relata sensibilidade de 85 a 100% e especificidade de 67 a 80% (faixas citadas por Soler Arias e Kooistra, 2025), e Bennaim et al. (2018) citam especificidade de 44 a 73%. Em 123 cães investigados para Cushing, 59 deles com a doença, Bennaim et al. encontraram sensibilidade de 96,6%, especificidade de 67,2% e valor preditivo negativo de 95,6%: a supressão normal torna o Cushing pouco provável, mas cerca de 1 em cada 3 cães sem a doença (21 de 64) teve resultado positivo, quase todos com supressão parcial, escape ou padrão inverso. Com a amostra de 4 horas, o padrão ajuda: a falta de supressão (4 e 8 horas acima de 1 µg/dL e acima de 50% do basal) teve valor preditivo positivo de 93,9%, a supressão parcial teve cerca de 70%, e os padrões de escape ou inverso, em que só uma das duas amostras fica abaixo de 1 µg/dL, tiveram 36,8%. Esses valores dependem da prevalência: no estudo, 48% dos cães tinham Cushing.
A supressão é mais sensível, porém menos específica e mais afetada pelo estresse do que a estimulação com ACTH, que tem sensibilidade menor e, quando negativa, não exclui o Cushing (Gilor e Graves, 2011).
Hipotireoidismo: o que cada exame responde
No estudo de Peterson et al. (1997), com 54 cães hipotireoideos, 54 eutireoideos com doença não tireoidiana e 150 cães sadios, os resultados foram estes, com ensaios da época (leia o resultado de hoje com o intervalo de referência do laudo):
T4 total (719): baixo em 48 de 54 cães hipotireoideos (89%) e em 18% dos eutireoideos doentes, com sensibilidade de 89% e especificidade de 82%. Em 3 cães hipotireoideos, o T4 total estava alto por autoanticorpos anti-T4.
T4 livre (718, e 717 pós-diálise): baixo em 53 de 54 cães hipotireoideos (98%) e em 7% dos eutireoideos doentes, com sensibilidade de 98% e especificidade de 93% (igual à do TSH), a maior sensibilidade e acurácia entre os exames isolados.
TSH canino (722): alto em 41 de 54 cães hipotireoideos (76%) e em 8% dos eutireoideos doentes, de modo que cerca de um quarto dos cães com hipotireoidismo confirmado tem TSH normal, e um TSH normal não exclui a doença.
Avaliados juntos, o T4 (total ou livre) e o TSH tiveram especificidade maior do que cada um sozinho, e só 1 cão eutireoideo apresentou T4 total e livre baixos com TSH alto.
O que atrapalha o resultado da tireoide
Doenças sistêmicas baixam os hormônios da tireoide sem que a glândula esteja doente. Em 223 cães com doenças não tireoidianas, o T4 total, o T4 livre e o T3 foram menores do que nos sadios, mais ainda nas doenças moderadas e graves, e o TSH, em geral, ficou no intervalo de referência, embora a mediana fosse maior que a dos sadios (Kantrowitz et al., 2001). Em 25 cães eutireoideos que tinham doença aguda e T4 total baixo na admissão, ele ficou abaixo do intervalo em 20% na alta, em 4% duas semanas depois e em nenhum quatro semanas depois, e os autores recomendam medir o T4 total 2 a 4 semanas depois da alta ou o T4 livre por diálise de equilíbrio durante a doença (Bolton et al., 2023). O T4 livre também engana: em 22 cães eutireoideos doentes com T4 total baixo, cujos soros vinham do estudo de 2023, ele ficou dentro do intervalo em só 41% (diálise de equilíbrio, com outro kit; em 2023 haviam sido 86%) e 45% (quimioluminescência) dos cães (Bolton et al., 2025).
A perda de proteínas também interfere: em 70 cães com diarreia crônica, 9 (12,9%) tiveram TSH elevado, 6 deles entre os 21 com albumina abaixo de 20 g/L, o que pode refletir perda de proteínas de ligação, embora, sem teste de estimulação com TSH, o hipotireoidismo subclínico não possa ser descartado (Lecomte et al., 2025). Em cães com Cushing controlado por 6 meses com trilostano, num estudo sem grupo controle, o T4 livre caiu em média 50% e o TSH subiu, embora mais da metade tenha mantido os dois no intervalo, e o efeito do trilostano não se separa da queda do cortisol (Bolton e Panciera, 2023). Para acompanhar o T4 total ao longo do tempo, use sempre o mesmo ensaio, porque os métodos têm vieses diferentes (Wolff et al., 2020).
Qual exame pedir em cada situação
Suspeita de Cushing: o perfil 085 (2 dosagens) ou o 055 (3 dosagens), que já trazem fosfatase alcalina, colesterol, glicose e creatinina, com urinálise (305) para a densidade urinária; prefira as 3 dosagens quando o padrão de supressão importar.
Cushing confirmado: ACTH endógeno (703), com ultrassom abdominal.
Suspeita de hipotireoidismo em cão sem outra doença: perfil tireoidiano (057), com TSH, T4 livre e T4 total, ou o completo (060), que soma colesterol e triglicerídeos.
Cão internado ou doente: se possível, adie a tireoide e meça o T4 total 2 a 4 semanas depois da alta (Bolton et al., 2023); se não puder esperar, esses autores indicam o T4 livre por diálise de equilíbrio (717, 058 ou 059), que mesmo assim pode vir baixo em cão eutireoideo (Bolton et al., 2025), então leia o resultado com o TSH e a história clínica.
Perfil endócrino básico (045): reúne T4 livre, cortisol basal e colesterol e não fecha o diagnóstico; um valor alterado pede o exame confirmatório (supressão com dexametasona ou TSH e T4 total).
Cinco cuidados na coleta
Jejum: a SPES LAB pede jejum para cortisol, T4 e TSH.
Dexametasona e horários: colha o basal antes da dexametasona e anote no pedido a dose, a hora da aplicação e a hora de cada colheita (8 horas depois nas 2 dosagens; 4 e 8 horas depois nas 3), com cada tubo identificado.
Cão calmo: em cães saudáveis, o cortisol foi maior depois de esperar dentro da clínica do que ao ar livre, segundo um estudo citado por Soler Arias e Kooistra (2025), então mantenha o cão tranquilo entre as colheitas.
Tubo: soro (tampa vermelha ou amarela) para cortisol, T4 e TSH, um tubo por horário; os perfis 045, 046, 055 e 085 pedem também tubo com fluoreto (tampa cinza). O ACTH vai em EDTA (tampa roxa); no estudo de Soler Arias e Kooistra (2025) o sangue foi colhido em tubo plástico, no gelo, e o plasma foi separado e congelado, então combine esse preparo com a SPES LAB antes de colher.
Informações no pedido: espécie, idade, sinais, medicamentos usados nas últimas semanas (principalmente glicocorticoides, progestágenos, fenobarbital, sulfonamidas, anti-inflamatórios e trilostano), anestesia ou cirurgia nos últimos 14 dias e doenças concomitantes.
Exames da SPES LAB para Cushing e tireoide
A SPES LAB, laboratório veterinário em São José do Rio Preto, oferece os exames abaixo; as dosagens hormonais são por quimioluminescência, salvo indicação em contrário.
Código · exame · amostra · prazo
708 · Cortisol basal · Soro · 6 dias úteis
704, 706 · Cortisol 2 dosagens e 3 dosagens (supressão com dexametasona) · Soro · 6 dias úteis
703 · ACTH · EDTA · 9 dias úteis
046 · Perfil hiperadrenocorticismo 1: cortisol basal, sódio, potássio, creatinina e glicose · Soro e fluoreto · 6 dias úteis
085 · Perfil hiperadrenocorticismo 2: cortisol pós-dexametasona (2 dosagens), fosfatase alcalina, colesterol, glicose e creatinina · Soro e fluoreto · 6 dias úteis
055 · Perfil hiperadrenocorticismo 3: cortisol pós-dexametasona (3 dosagens), fosfatase alcalina, colesterol, glicose e creatinina · Soro e fluoreto · 6 dias úteis
719 · T4 total · Soro · 7 dias úteis
718 · T4 livre · Soro · Consulte a equipe
722 · TSH canino (hormônio tireoestimulante) · Soro · 5 dias úteis
057 · Perfil tireoidiano: TSH, T4 livre e T4 total · Soro · 7 dias úteis
060 · Perfil tireoidiano completo: TSH, T4 livre, T4 total, colesterol e triglicerídeos · Soro · 7 dias úteis
045 · Perfil endócrino básico: T4 livre, cortisol basal e colesterol · Soro e fluoreto · 6 dias úteis
A SPES LAB também oferece por radioimunoensaio o cortisol basal, 2 dosagens e 3 dosagens (709, 705 e 707), os perfis de hiperadrenocorticismo 2 e 3 (052 e 084), o T4 total (720), o T4 livre pós-diálise (717) e os perfis tireoidianos com T4 livre pós-diálise (058 e 059), todos com prazo de 7 dias úteis. Os valores estão no portfólio de exames ou podem ser pedidos pelo WhatsApp.
Perguntas frequentes
Qual tubo usar no teste de supressão com dexametasona?
Soro, em tubo com ativador de coágulo ou gel separador (tampa vermelha ou amarela), um por horário de colheita e com a hora anotada. Nos perfis 085 e 055, que incluem glicose, envie também o tubo com fluoreto (tampa cinza).
Cortisol, T4 e TSH precisam de jejum?
A SPES LAB pede jejum para os três. Se o animal comeu, informe no pedido.
T4 livre ou T4 total: qual pedir?
Os dois, com o TSH, sempre que possível: o T4 livre foi mais sensível e mais específico que o T4 total no estudo de Peterson et al. (1997), mas pode vir baixo em cão eutireoideo doente (Bolton et al., 2025). O perfil tireoidiano (057) reúne os três.
Prednisona, fenobarbital e anti-inflamatórios mudam o exame da tireoide?
Sim. Segundo a revisão de Bolton e Panciera (2023), depois de 3 semanas de prednisona em dose imunossupressora, a suspensão por pelo menos 1 semana provavelmente devolve o T4 total e o livre ao valor basal; o fenobarbital pede pelo menos 6 semanas sem o medicamento; as sulfonamidas potencializadas, pelo menos 4 semanas; e a aspirina é o anti-inflamatório que mais altera o T4, com 7 a 14 dias sem o medicamento e sem prazo exato estabelecido, enquanto carprofeno, cetoprofeno, deracoxibe e meloxicam pouco ou nada alteraram o T4 nos estudos. Depois de anestesia inalatória ou cirurgia, não meça o T4 total nos 14 dias seguintes. Suspender qualquer medicamento é decisão do veterinário responsável.
O mesmo teste serve para gatos?
Não com a mesma dose. O Cushing é pouco comum em gatos idosos e a maioria dos gatos com a doença tem diabetes, e a revisão de Boland e Barrs (2017) recomenda uma dose de dexametasona 10 vezes maior que a do cão no rastreamento. Informe a espécie e o protocolo no pedido.
Quanto tempo demora o resultado?
Na SPES LAB, o cortisol (basal, 2 e 3 dosagens) por quimioluminescência sai em 6 dias úteis e por radioimunoensaio em 7, o TSH canino em 5, o T4 total em 7 e o ACTH em 9. Para o T4 livre e para os perfis, veja a tabela.
Fale com a SPES LAB
Tem dúvida sobre qual exame pedir para o seu paciente? Fale com a equipe pelo WhatsApp (17) 99639-2840. Se a sua clínica ainda não envia amostras para a SPES LAB, faça o cadastro.
Revisão técnica: M.V. Gustavo Tufaile Cassia, CRMV-SP 36.464.
Referências
Behrend EN et al. Diagnosis of spontaneous canine hyperadrenocorticism: 2012 ACVIM consensus statement (small animal). Journal of Veterinary Internal Medicine, 2013.
Soler Arias EA, Kooistra HS. Urinary Corticoid-to-Creatinine Ratio 8 Hours After Low-Dose Oral Dexamethasone for the Diagnosis of Cushing's Syndrome in Dogs. Animals, 2025.
Ferguson DC. Testing for hypothyroidism in dogs. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 2007.
Gilor C, Graves TK. Interpretation of laboratory tests for canine Cushing's syndrome. Topics in Companion Animal Medicine, 2011.
Jaffey JA et al. Diagnostic contribution of individual components of adrenal function tests to diagnose canine hyperadrenocorticism. The Veterinary Journal, 2020.
Bennaim M et al. Evaluation of individual low-dose dexamethasone suppression test patterns in naturally occurring hyperadrenocorticism in dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2018.
Peterson ME. Diagnosis of hyperadrenocorticism in dogs. Clinical Techniques in Small Animal Practice, 2007.
Rossi G et al. Immunoassay antibody modification significantly impacts low-dose dexamethasone suppression test cutoffs in dogs with Cushing syndrome. American Journal of Veterinary Research, 2026.
Peterson ME, Melián C, Nichols R. Measurement of serum total thyroxine, triiodothyronine, free thyroxine, and thyrotropin concentrations for diagnosis of hypothyroidism in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association, 1997.
Kantrowitz LB et al. Serum total thyroxine, total triiodothyronine, free thyroxine, and thyrotropin concentrations in dogs with nonthyroidal disease. Journal of the American Veterinary Medical Association, 2001.
Bolton TA et al. Thyroid function tests during nonthyroidal illness syndrome and recovery in acutely ill dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2023.
Bolton TA et al. Free thyroxine measured by chemiluminescence and equilibrium dialysis is frequently below the reference interval in known euthyroid dogs with nonthyroidal illness syndrome. Frontiers in Veterinary Science, 2025.
Lecomte A et al. Hypoalbuminemia and altered thyroid parameters in dogs with chronic diarrhoea: Is protein loss driving TSH elevation? The Veterinary Journal, 2025.
Bolton TA, Panciera DL. Influence of medications on thyroid function in dogs: An update. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2023.
Wolff EDS et al. Comparison of 2 assays for measuring serum total thyroxine concentration in dogs and cats. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2020.
Boland LA, Barrs VR. Peculiarities of feline hyperadrenocorticism: Update on diagnosis and treatment. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2017.
